Políticos do Paraguai acusam Lula de “distorcer a história” em fala sobre a guerra de 1864
A senadora Esperanza Martínez (Frente Guasú) afirmou que a fala reflete “resquícios do imperialismo que tentam ocultar uma guerra criminosa e uma política histórica de domínio sobre o Paraguai”.

Deputados e senadores do Paraguai acusaram o presidente Luiz Inácio Lula da Silva de “distorcer a história” ao afirmar que a Guerra do Paraguai teve início quando o país vizinho “decidiu invadir” o Brasil. A declaração de Lula ocorreu na última sexta-feira (24), durante visita à fábrica da Avibras, em Jacareí (SP), onde defendeu novos investimentos no setor de defesa e o fortalecimento das Forças Armadas brasileiras.
“Lula, você está falando com demasiada leveza sobre a maior tragédia da nossa história, o maior genocídio do nosso continente”, rebateu o presidente da Câmara dos Deputados do Paraguai, Raúl Latorre (Partido Colorado), em comunicado institucional divulgado neste domingo (26).
Latorre ressaltou que a Guerra da Tríplice Aliança — que opôs o Paraguai à coalizão formada por Brasil, Argentina e Uruguai, dizimando grande parte da população paraguaia — “teve seu início com a intervenção militar do Brasil no Uruguai” e deixou o país vizinho completamente devastado.
“Você já disse uma vez que iria acabar com a guerra na Ucrânia ‘com uma cervejinha’. Hoje, volta a falar de forma leviana sobre conflitos armados na América. Se suas ‘jabuticabas’ acabaram, podemos te enviar algumas. Nós conhecemos o verdadeiro valor da paz porque a pagamos com nosso sangue”, concluiu o parlamentar.
O que disse o presidente brasileiro
Durante o evento em São Paulo, Lula defendeu que as Forças Armadas brasileiras estejam “bem preparadas e treinadas” como força de dissuasão porque, segundo ele, “há loucos pelo mundo querendo fazer guerra”, destacando a necessidade de “poderio armamentista” para negociar a paz.
“Nós gostamos da paz, mas não podemos esquecer que, certa vez, o Paraguai decidiu invadir o Brasil. Invadiu Corumbá e, ao mesmo tempo, invadiu o Uruguai e a Argentina. E essa guerra, que parecia que não seria grande coisa, durou cinco anos”, afirmou o presidente.
Reações no Congresso paraguaio
A fala do mandatário brasileiro gerou reações tanto de aliados quanto da oposição ao governo do presidente Santiago Peña. O deputado Rubén Rubín (do partido Hagamos) acusou Lula de tentar reescrever o passado: “Um povo que esquece sua história permite que outros a reescrevam conforme lhes convém. E é exatamente isso que Lula tenta fazer”, declarou nas redes sociais.
A senadora Esperanza Martínez (Frente Guasú) afirmou que a fala reflete “resquícios do imperialismo que tentam ocultar uma guerra criminosa e uma política histórica de domínio sobre o Paraguai”.
Já o senador e historiador Eduardo Nakayama (PLRA) enfatizou que Lula omitiu em sua fala a invasão prévia do exército imperial brasileiro ao Uruguai, evento que precipitou a escalada do conflito mais sangrento da América do Sul.
O contexto histórico da guerra
A Guerra do Paraguai (1864–1870) envolveu disputas geopolíticas e territoriais complexas na Bacia do Prata. Historiadores concordam que a intervenção militar do Império do Brasil na política interna do Uruguai, em 1864, desestabilizou a região. Em resposta, o governo paraguaio apreendeu o navio a vapor brasileiro Marquês de Olinda e realizou a invasão da província de Mato Grosso. O ato levou à formalização do Tratado da Tríplice Aliança entre Brasil, Argentina e Uruguai e ao avanço das tropas aliadas sobre o território paraguaio.
![]()



