PF indicia Vorcaro, ex-presidente do BRB e mais 13 por fraude bilionária e lavagem de dinheiro
Os investigadores identificaram que cerca de R$ 7 bilhões associados às operações da Tirreno nunca saíram das contas internas do próprio Banco Master, evidenciando uma maquiagem contábil para dissimular a real titularidade do dinheiro.

A Polícia Federal (PF) indiciou nesta quarta-feira (28) o fundador do Banco Master, Daniel Vorcaro, o ex-presidente do Banco de Brasília (BRB), Paulo Henrique Costa, e outras 13 pessoas por envolvimento em um esquema bilionário de fraudes financeiras e lavagem de dinheiro. A conclusão consta do relatório parcial do Inquérito 5.026, que tramita no Supremo Tribunal Federal (STF) e investiga a tentativa de venda do Master ao banco público do Distrito Federal.
Além do cúpula executiva de ambas as instituições financeiras, o indiciamento alcança diretores, operadores financeiros e advogados. Eles são suspeitos de gestão fraudulenta, organização criminosa e lavagem de dinheiro.
O documento aponta que o grupo atuava na negociação de carteiras de crédito de origem questionável, fabricação posterior de documentos para simular legalidade e ocultação de recursos bilionários.
Os 15 indiciados pela Polícia Federal:
Daniel Bueno Vorcaro — Ex-controlador do Banco Master;
Paulo Henrique Bezerra Rodrigues Costa — Ex-presidente do BRB;
Augusto Ferreira Lima — Ex-sócio do Banco Master;
Angelo Antônio Ribeiro da Silva — Executivo do Banco Master;
Luiz Antonio Bull — Executivo do Banco Master;
Alberto Félix de Oliveira Neto — Responsável pela tesouraria do Master;
Allan da Silva Machado — Operador de carteiras de crédito;
Henrique Souza e Silva Peretto — Vinculado à empresa Tirreno;
André Felipe de Oliveira Seixas Maia — Vinculado à Tirreno;
Daniel Lopes Monteiro — Advogado responsável pela estruturação jurídica;
Dario Oswaldo Garcia Junior — Ex-diretor financeiro do BRB;
Luana de Andrade Ribeiro — Dirigente do BRB;
Cristiane Maria Lima Bukowitz — Dirigente do BRB;
Diogo Ilário de Araújo Oliveira — Dirigente do BRB;
José Maria Correa Dias Junior — Dirigente do BRB.
O esquema: R$ 7 bilhões em contas internas e documentos “fajutos”
Segundo o relatório da PF, o núcleo do esquema envolvia a cessão de carteiras de crédito entre o Banco Master e a empresa Tirreno, que servia de intermediária antes do repasse final dos papéis ao BRB.
Os investigadores identificaram que cerca de R$ 7 bilhões associados às operações da Tirreno nunca saíram das contas internas do próprio Banco Master, evidenciando uma maquiagem contábil para dissimular a real titularidade do dinheiro.
A perícia da PF também descobriu uma engrenagem de produção retroativa de provas:
Cédulas de Crédito Bancário (CCBs) eram assinadas com datas pretéritas;
Procurações eram emitidas em lote para validar transações antigas;
Contratos eram formalizados meses após a data em que supostamente haviam entrado em vigor.
Mesmo diante de alertas explícitos de auditorias internas apontando ausência de documentação, falta de averbações e disparada na inadimplência, a diretoria do BRB continuou comprando os papéis. Segundo a PF, a cúpula do banco público aprovou mais de R$ 5 bilhões em novas aquisições de créditos podres após a identificação das irregularidades.
O papel de cada núcleo e o braço jurídico
A Polícia Federal dividiu a organização em núcleos estratégicos e operacionais. Vorcaro e Paulo Henrique Costa comandavam a cúpula estratégica, sendo responsáveis pela articulação dos acordos e direcionamento das decisões do BRB.
A engrenagem contava ainda com a participação do escritório de advocacia Monteiro Rusu, liderado por Daniel Lopes Monteiro. Segundo a PF, o advogado atuou na criação da estrutura societária da Tirreno e na confecção de minutas e contratos com inconsistências deliberadas, permitindo que documentos elaborados dentro do Banco Master fossem formalmente apresentados como se partissem da empresa parceira.
Desdobramentos da Operação Compliance Zero
Deflagrada no fim de 2025, a Operação Compliance Zero investiga a teia de contaminação e crimes em torno do Banco Master, que acabou liquidado pelo Banco Central. O caso subiu ao STF sob a relatoria do ministro André Mendonça.
Atualmente preso na Superintendência da Polícia Federal em Brasília após ter sido detido novamente em março, Daniel Vorcaro apresentou uma proposta de delação premiada ao Supremo, que se encontra sob análise da equipe do ministro.
A Polícia Federal ressalva que o indiciamento é um ato conclusivo da fase de inquérito policial e não representa condenação judicial nem oferecimento formal de denúncia, decisão que caberá ao Ministério Público Federal (MPF). As investigações continuam para analisar materiais apreendidos, quebrar sigilos bancários adicionais e mapear a participação de outros operadores funcionais.
Com a palavra, os citados
Procurada pela reportagem, a defesa dos indiciados não havia se manifestado até a publicação deste texto. O espaço permanece aberto.
Em declarações anteriores, Daniel Vorcaro classificou as acusações como “narrativa fantasiosa” e sustentou que as operações entre o Banco Master e o BRB foram “negócios absolutamente lícitos, amparados por pareceres técnicos e órgãos colegiados de governança de ambos os bancos, sem causar qualquer prejuízo ao BRB”.
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